Cientistas começaram nesta semana a tirar medidas de árvores num pedaço de mata 60 km ao norte de Manaus, dando início ao mais ambicioso experimento projetado na Amazônia em 20 anos.

 

O projeto Amazon Face tentará responder à pergunta que mais atormenta ecólogos da região: a floresta sobreviverá às secas que virão com o aquecimento global?

Liderado pela Unesp (Universidade Estadual Paulista) e contando com mais 14 centros de pesquisa, o experimento consiste em bombear CO2permanentemente sobre alguns pedaços de floresta.
Sob concentração de gás carbônico elevada, árvores teriam a fotossíntese intensificada, o que compensaria o déficit de crescimento e a morte causados pela seca.

“Os modelos [simulações computacionais] que vem sendo rodados mostram que o efeito de fertilização de CO2 seria o fiel da balança para manter a floresta em pé”, explica o ecólogo David Lapola, diretor do experimento. “Mas isso é mera especulação ainda. A resposta não virá sem um experimento assim.”

O Amazon Face será o primeiro experimento do tipo num ecossistema tropical. Sua primeira fase será realizada de 2015 a 2017. Depois de ampliado, deve operar até 2027. Para bombear o CO2 sobre as plantas, serão erguidas torres ligadas a um tanque de gás carbônico líquido.

Durante a duração do experimento, a concentração de gás carbônico será 200 ppm (partes por milhão) maior que a natural –um aumento de 50% em termos atuais.

Inicialmente, o CO2 líquido para o experimento será comprado de um fornecedor que abastece fábricas de refrigerante em Manaus. Para a fase final, Lapola ainda avalia a possibilidade de receber ajuda da Petrobras, que forneceria o gás natural necessário à produção do CO2 líquido –responsável por 62% do custo do experimento.

O local de construção das torres, administrado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, já foi estudado em outros projetos. Há dados locais colhidos desde 1996, vitais para saber quão impactado será o crescimento de árvores sob o experimento.

Para saber se a “fertilização de CO2” aliviará a seca e o aumento de temperaturas, porém, será preciso alimentar modelos computacionais, que permitirão comparar diferentes efeitos previstas com o aquecimento global.

“Se tivermos ‘sorte’, pode ocorrer uma grande seca na Amazônia durante o experimento, o que nos permitiria comparar diferentes períodos entre si”, diz Richard Norby, do Laboratório Nacional de Oak Ridge (EUA), colaborador do experimento.

Um dos arquitetos do projeto, o climatologista Carlos Nobre, secretário de políticas e programas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, defende o Amazon Face como um marco de maturidade da ciência nacional.

“Tomamos a iniciativa e buscamos cooperação internacional dos melhores grupos que têm experiência nesse tipo de experimento em florestas temperadas”, diz.

Experimento na Amazônia vai testar reação da floresta ao aquecimento global (FOLHA DE SÃO PAULO)